Silvio Teitelbaum – 23.04.2021

ONDE FICA A UCRÂNIA?

Por Silvio Teitelbaum, CEO DA FMP (Fundação Escola Superior do MP-RS), Professor Associado da FDC e Conselheiro de Empresas

Recentemente finalizei a leitura da obra de Tom Nichols The death of expertise: the campaign against established knowledge and why it matters. (New York: Oxford University Press, 2017. 252 p.).

Em tempos de UF (Universidade do Facebook) e de PGGW (Pós-graduação em Conhecimento adquirido nos grupos de WhatsApp), o livro é mais atual do que nunca. Trata-se de uma profunda discussão entre o conhecimento formal e o achismo digitalmente espalhado. Lembrei-me da obra nesta semana ao me deparar com inúmeros especialistas em efeito estufa que espocaram nas redes e veículos. Já temos os juristas, economistas e cientistas políticos. Chegamos nos críticos climáticos.

Inobstante a postura do Brasil ser pífia no combate ao desmatamento e ao controle da emissão de gases alguns dados mínimos – se consultados – poderiam ter feito sonora diferença nos discursos. Inclusive, de grande veículos como GloboNews e CNN, que tem sido o quadro da depressão e cremação (com efeito estufa) do jornalismo.

No ranking das emissões o Brasil se encontra em 13º lugar, emitindo 466 maegatoneladas de CO2. A China, líder, emite 10175. E Baiden, que surfou de bom moço na onda da compra das vacinas pelo Trump (ou o leitor acha que foi o bom velhinho que fez as compras em janeiro?), lidera uma Nação que emite 5285. E nós somos os vilões?

Ah, somos os vilões do desmatamento, então. É isso? Eu não tive tempo de pesquisar, mas creio que a Amazônia Legal, composta por nove estados, deve ter na parte Brasileira algo próximo a 80% do território. É um bocado de metros quadrados que precisam de uma nova política, sem dúvida. Incluindo-se a questão da presença de ONG’s que precisam ter suas finalidades investigadas. Mas haveria algo de tão diferente em relação aos outros anos?

O pequeno exercício acima é só um exemplo do que não se faz hoje. Muito se fala em “ciência”, em desrespeito aos cientistas e aos protocolos sanitários. Porém, quando o assunto é ciência social ou econômica escolhe-se a opinião ao invés dos fatos. Os mais de 200 cientistas que recentemente protestaram contra a “ameaça bolsonariana à ciência” poderiam, igualmente, protestar contra a ameaça à informação que tem sido praticada.

Vejam que eu não estou defendendo o negacionismo covidiano. Não estou negando a emissão dos gases e nem o descaso ambiental. Estou apenas dizendo que dados e informações aparecem para defender a ciência quando convém aos argumentos ideológicos.

O conhecimento profissional está morrendo. Na obra na qual me inspirei para escrever este modesto texto tem uma passagem que descreve uma suposta pesquisa entre os cidadãos norte americanos que busca saber se os EUA deveriam ou não invadir a Ucrânia a fim de evitarem um conflito nuclear com a Rússia. Apenas um em cada cinco entrevistados sabia onde fica a Ucrânia. Mas, independentemente de saberem onde ela fica (muitos a localizaram na América Latina ou na Austrália), os entrevistados teceram profundos comentários sobre a importância de invadi-la. E, dentre os que não sabiam a sua exata localização, a ampla maioria era favorável ao conflito. Detalhe assustador: a Ucrânia é o maior país em extensão territorial exclusivamente na Europa.

Vivemos tempos estranhos. De muitas certezas. De muitas “razões” e de pouca empatia a tal ponto que eu me pergunto se nós sabemos, de fato, onde fica a Ucrânia!

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