Silvio Teitelbaum – 07.05.2021

CONSUMO 4.0 EM TEMPOS NEOLÍTICOS

Por Silvio Teitelbaum, CEO DA FMP (Fundação Escola Superior do MP-RS), Professor Associado da FDC e Conselheiro de Empresas

Há muito que se lê e ouve-se falar na Teoria Geral da Administração que “estamos vivendo tempos de profundas transformações”. Foi assim quando se escreveu sobre a Primeira Revolução Industrial iniciada na indústria têxtil da Grã-Bretanha em meados do século XVIII. Os cem anos seguintes foram, também, de transformação em diversos setores: da agricultura ao comércio; dos transportes as comunicações e até mesmo nos modelos de produção.

Entre 1870 e 1930 as oportunidades que a Segunda Revolução Industrial gerou levaram a novas tecnologias: o rádio, a televisão, telefone, aviação e a iluminação elétrica foram alguns dos “inventos” que aceleraram os transportes e as comunicações tornando o mundo um lugar menor. O petróleo entrou em cena.

Por volta de 1950 temos o início da Terceira Revolução Industrial. A teoria da Informação, a computação digital e a onda verde trouxeram significativos avanços. Da mesma maneira que as revoluções anteriores foram de ruptura e evolução pode-se dizer com algum tom de certeza que a Terceira Revolução Industrial não ocorreu por causa das tecnologias digitais, mas a partir das mudanças que essas tecnologias promoveram no ambiente econômico e no comportamento humano.

Vive-se hoje, em algumas partes do Globo, o que se denomina de Quarta Revolução Industrial. Não temos nessa revolução um conjunto de tecnologias emergentes em si mesmas; mas a transição em direção a novos sistemas que foram construídos sobre a infraestrutura da revolução digital, segundo Klaus Schwab que preside o Fórum Econômico Mundial. Portanto, pode-se inferir que a Quarta Revolução Industrial está sendo talhada pela convergência de tecnologias digitais, físicas e biológicas.

Mas eis que em meio às diferenças de opinião, de matriz energética, de questões de sustentabilidade, debates éticos, disputas politicas, do atraso na sociedade promovido tanto pelo “politicamente correto” da esquerda como dos “populistas” de direita um vírus adentra no Planeta Terra e faz com que o Homo Sapiens retorne para seus casulos. Numa mistura de Paleolítico com Neolítico o Homem 4.0 se vê isolado nas suas casas. Nas cavernas e sem a possibilidade de andar pelo planeta.  A saúde sofre. A economia desacelera. Os aprendizados escritos e absorvidos parecem não ter muito sentido. A Pandemia está vencendo.

A incerteza quanto a cura pela contaminação através do Coronavírus promoveu uma série de mudanças em diversos setores. No consumo não foi diferente. A onda do “marketing de experiência”, por exemplo, precisou ser repensada.

Uma série de consequências deste momento difícil emergiu em diversos setores. Todavia, o nosso foco é o Varejo 4.0. E o Varejo em meio a um PIB que recuou algo em torno de 4% experimentou no ano de 2020 crescimento real (deflacionado pelo IPCA) de 9,36% na comparação com 2019.

Não foi pelo fato de “estar aberto” que o setor de supermercados atingiu este índice. Grande parte da população voltou a consumir no varejo da sua rua, do seu bairro. As relações locais se fortaleceram. Mas só “a conta no caderninho” não irá sustentar o setor na medida em que sairmos destes tempos de anormalidade.

Algumas mudanças – já praticadas – trouxeram o mundo 4.0 para o presente e as ferramentas nos possibilitaram e possibilitarão crescimentos que não sejam “voo de galinha”.

Como tendência irreversível está a digitalização dos processos que levará as empresas a se tornarem OMNI CHANNEL. Omnichannel é uma estratégia de uso simultâneo e interligado de diferentes canais de comunicação, com o objetivo de acabar com a separação entre online e offline, aprimorando, assim, a experiência do cliente. Essa tendência do varejo permite a convergência do virtual e do físico.

A proximidade e o afeto nas relações de consumo se tornaram fundamental, até porque as compras passaram a ser feitas em locais próximos de casa. Que proporcionam experiências de cordialidade e acolhimento. Nos comportamentos simples é que a diferença será notada. A “freguesia” retornará com ares humanos, inobstante a digitalização.

Fato marcante também será a reinvenção da cadeia produtiva. E neste contexto haverá que se respeitar o ciclo da natureza, pois o “consumo ético” será cada vez mais presente e valorizado pelos “fregueses”.

Outro fator que se antevê é a pressão sobre os preços e descontos que serão demandados. É inegável que estamos vivendo um momento em que a liquidez de uma parcela significativa da população se reduziu. A sabedoria em compor mix atrativos entendendo o perfil de seus compradores terá de conversar com as diversas plataformas de vendas.

O medo ainda será uma constante, ao menos nos próximos três anos. Isso abrirá a oportunidade para as entregas programadas nas casas dos consumidores. Tal movimento de compra customizada recorrente poderá ser sincronizado com a cadeia produtiva, mas a Dona Sofia seguirá indo à padaria do mercado. Seguirá comprando a carne e os legumes manuseando-os. Ela saberá ser digital. Estará vacinada pela quinta versão da vacina e o varejo seguirá sendo um porto seguro.

As mudanças seguirão acontecendo. Talvez, até mesmo novas pandemias. Uma revolução 5.0? Sabe-se lá. Mas o que eu não tenho dúvida é que os supermercados por mais que se fale no e-commerce seguirão firmes, sendo um ponto de encontro entre vizinhos e sabores. Afinal, pelo Wi-fi ainda não podemos sentir o frescor das frutas e verduras. Ao menos até este artigo fechar.

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