Cado Bottega – 04.06.2021

YESTERDAY E FRANKENSTEIN: CRIADORES E CRIATURAS

Por Cado Bottega, publicitário, conselheiro e co-fundador do Clube de Criação do RS, Vice-Presidente da ARP- Associação Riograndense de Propaganda e Diretor de Inteligência Criativa da BLEND Comunicação

Talvez a pergunta mais recorrente que aparece quando dou palestras, faço lives ou mesmo nas aulas, é como acontece o meu processo criativo. Todo mundo tem curiosidade de saber: afinal, de onde vêm as ideias?

Costumo dizer que elas aparecem, muitas vezes, quando a gente menos espera e em momentos triviais como no banho, almoçando, vendo um filme e até dormindo. Por isso, aconselho a deixar uma caderneta na cabeceira da cama para anotar o que pode ser uma puta ideia que veio em um sonho ou pesadelo. Achou engraçado? Paul McCartney tinha um piano ao lado da cama quando compôs “Yesterday.” Segundo o próprio McCartney relatou em entrevista à revista Rolling Stone, os Beatles estavam hospedados em um pequeno sótão, em Londres, em 1965, para a gravação de “Help!”, outro hit.

De repente, ele acordou com uma melodia na cabeça e decidiu registrar. “Eu tinha um piano ao lado da cama, e eu devo ter sonhado com ela, porque eu sai da cama e coloquei as mãos no piano com o tom dela já na cabeça. Já estava tudo lá, a coisa toda”, disse ele. Descrente do que tinha realizado, Paul teve medo de ter copiado a música de alguém. Só depois de tocá-la para diversas pessoas e ninguém a reconhecer, ele teve coragem de gravar.

“Eu gostei muito da melodia, eu não podia acreditar que eu a tinha escrito. Eu pensei, “não, eu nunca escreveria algo assim”, revelou ele, em entrevista para o site de notícias da BBC. Sem saber qual letra criar para combinar com a melodia sonhada, a música quase chegou a se chamar “Scrambled Eggs” (Ovos Mexidos, em português) por causa do trecho, “Scrambled eggs/Oh, my baby, how I love your legs” (Em português: oh meu amor, como eu amo suas pernas, tanto como ovos mexidos), um dos únicos textos que o McCartney conseguia pensar. Mas depois de viajar com sua namorada, Jane Asher, ele finalmente conseguiu criar uma letra que definiu como “a mais completa música que ele já escreveu”. Ela foi gravada em junho de 1965 e lançada em setembro do mesmo ano.

E quanto ao sonho virar um pesadelo outro exemplo fascinante é “Frankenstein” e as circunstâncias em que a obra foi criada. Vale lembrar que ele aconteceu quase de maneira casual. Mary Shelley e seu marido Percy estavam passando o verão de 1816 às margens de um lago na Suíça e tinham como vizinho o poeta Lord Byron. Durante as noites ou quando o tempo não estava propício aos passeios, os amigos reuniam-se para ler histórias alemãs de fantasmas e discutirem teorias científicas que estavam em propagação naquela época, como, por exemplo, o galvanismo e as experiências do Dr. Erasmus Darwin (avô de Charles Darwin) no campo das leis da vida orgânica. No calor das discussões, eles chegaram a cogitar a possibilidade de se reanimar um cadáver.

Para passar o tempo, Byron propôs que cada pessoa presente (ele próprio, seu amigo Polidori e os Shelley) escrevesse uma história fantasmagórica. Sob a influência das histórias lidas e das discussões filosóficas e científicas, Mary Shelley conforme ela mesma diz, “viu” em uma noite que estava com insônia a cena principal de sua história: um jovem cientista apavorado diante da criatura disforme que acabara de dar vida. No outro dia, Mary disse aos seus amigos que tinha pensado em uma história e escreveu um conto de poucas páginas que se iniciava com a frase: “It was on a dreary night of November ” que, na versão definitiva da obra, está localizada no início do capítulo V, página 25, onde justamente a Criatura recebe a vida. Entusiasmados com o que leram, os amigos, e principalmente o marido, incentivaram-na a transformar aquele conto num romance, que foi publicado pela primeira vez em 1818.

Por isso o Processo Criativo é tão fascinante e ainda surpreende. Mas eu, pessoalmente, posso afirmar que todas as anotações que fiz de sonhos que tive não renderam absolutamente nada. Grande parte eu não entendi o que tinha rabiscado e o restante não se aproveitou. O que valeu mesmo foi continuar exercitando o cérebro mesmo quando achamos que ele está desligado. Na verdade, ela está incubando alguma ideia que, certamente, vai resolver aquele seu problema. Ou não.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *